PONDERAÇÕES PARA OS QUE FORAM BATIZADOS NO CRISTIANISMO E, TAMBÉM, PARA OS QUE ACREDITAM EM DEUS E NA HUMANIDADE

Por Marco Aurélio Arrais
O início do século XXI mostra que os que se dizem seguidores de Jesus, professam uma fé confusa e de total ignorância, quanto à chamada Teologia do Cristianismo.
Ora, a teologia do cristianismo foi criada pela Igreja Católica Apostólica Romana, sendo ela responsável, tanto pela escolha dos Evangelhos do Novo Testamento, como pelos ritos e dogmas impostos a seus fiéis, através dos séculos.
Até a Reforma, era a Igreja Católica a única “dona” da religião então vigente e praticada no Ocidente. Nos primeiros 1500 anos de domínio da Igreja Católica, foi estruturada toda a doutrina do Cristianismo. Foram estabelecidos seus mais importantes dogmas, como a deificação do homem Jesus de Nazaré, a idealização do Espírito Santo e a afirmação de Maria como mãe de Deus, dentre outros.
Qualquer um que tenha um pouco de conhecimento de Teologia, sabe que a estruturação da doutrina Católica se fez com enorme custo de sangue e vidas, pois uma obra deste nível, principalmente se falando de religião, foi edificada pela imposição de ideias e conveniências dos setores mais poderosos da Igreja, que não se furtou em promover perseguições, prisões e execuções de seus opositores.
A grande maioria da população do Ocidente cristão, à época, não tinha qualquer condição de contestar o que era imposto pela Igreja. A população da Europa era analfabeta – viviam todos na ignorância, excluindo os homens da Igreja, alguns reis e membros da nobreza, uns ou outros pertencentes às classes economicamente dominantes – comerciantes, mercadores, militares de alta patente e proprietários rurais. A elite letrada era composta em sua esmagadora maioria por homens, já que às mulheres era, propositadamente, negada qualquer tipo de instrução.
O conhecimento teológico e filosófico ficou restrito à elite religiosa e era negado muitas vezes até aos pequenos párocos – de formação deficiente. Estes últimos, no entanto, eram responsáveis por levar ao povo os ensinamentos da religião.
O acesso aos escritos canônicos e à própria Bíblia, eram proibidos ao povo em geral. Naquela época, os grandes teólogos sempre pregavam que o conhecimento poderia levar à dúvida, à descrença, ou pior ainda, ao ateísmo. Davam como exemplo o que ocorreu com Adão e Eva no paraíso, condenados que foram eles e seus descendentes, por Deus, por se atreverem a comer do fruto da árvore do conhecimento.
Essas “verdades” só começaram a ser contestadas de forma direta, por alguns estudiosos, após a Renascença, quando a igreja permitiu o acesso a inúmeras obras dos escritores antigos e o resgate do conhecimento clássico – embora já houvesse algum contato com a filosofia através dos árabes, até então um povo mais culto que o europeu bárbaro e medieval.
Nos dias de hoje vemos um afastamento cada vez maior das pessoas em relação à religião. Grande parte da população cristã do século XXI não aceita, simplesmente, as imposições dos líderes religiosos, pois exige ter um entendimento lógico e claro daquilo em que necessita acreditar.
O cristianismo, como religião, é quase que totalmente desconhecido pela maioria das pessoas batizadas.

O cristianismo foi criado a partir da figura de Jesus de Nazaré, não dos seus ensinamentos. Ninguém, hoje, se diz cristão. Essa denominação foi estraçalhada pela concorrência religiosa, sufocada pelas lianas do cipoal das centenas de denominações das autointituladas “igrejas” evangélicas, que transformaram a doutrina cristã em fator de disputa financeira.
Se perguntado às pessoas batizadas, neste ano de 2015, qual a sua religião, quase cem por cento responderão que são católicas, evangélicas, espíritas, luteranas, além de outras denominações. Pouquíssimas, consideram-se cristãs.
Se perguntado a quem ou a que devem obediência, todos apontariam padres, pastores e outras autoridades, mas nenhuma iria lembrar-se daquele denominado “Filho de Deus”, que transmitiu os ensinamentos norteadores da vida aos que nele acreditam.
Essa teologia criou, nos primórdios da Igreja, o denominado “Evangelho do Resgate”, que consiste na salvação do homem que, concebido no pecado (o ato sexual), é marcado pelo chamado “pecado original”, ao qual foram condenados os descendentes de Adão e Eva.
A história de Adão e Eva remonta à cultura suméria, quando as religiões eram politeístas. Adão, Eva, a Serpente e Javé eram todos deuses, em níveis desiguais. Tanto que a serpente sabotou os planos de Javé para todo o sempre, já que ali havia uma competição de poderes. O “Evangelho de Resgate”, assim, prega que o homem seja salvo do próprio Deus que o criou. Para isso, ele tem que crer e aceitar os ensinamentos (a palavra) do Filho Único do Criador.
Porém, com o passar do tempo, a prática desses ensinamentos foi se tornando difícil, já que somos uma espécie egoísta, gananciosa e individualista. Ficou mais fácil apenas “aceitar” Jesus a qualquer momento, nem que seja um segundo antes da morte.
Desta forma, nos dias de hoje, para ser “salvo”, basta dizer que “aceita” – não os ensinamentos, mas a figura, a pessoa daquele que “morreu para salvar os homens que nele “creem”.
Fácil e cômodo! O egoísmo, a intolerância e a ganância são donos das vontades e decisões pessoais. Basta declarar a um autodenominado “ungido” por Deus que “aceita” Jesus, e aí todos os seus pecados, crimes e malfeitos são magicamente apagados nos “cartórios celestiais”. E essa “aceitação” passa longe da compreensão da mensagem do denominado “Salvador”.
Os pecados que porventura possam cometer após a “aceitação”, são limpos através de doações monetárias, denominadas como “sacrifício”, tal como nas antigas indulgências, às várias instituições ditas religiosas, que concorrem entre si na captação de seguidores, para a glória do “seu” Jesus.
A figura daquele que criou o Universo, o Pai Eterno, Deus, Javé, foi há muito relegada ao esquecimento. Ele parece não ser mais necessário.
Para alguns, Javé passou para uma espécie de segundo escalão. Hoje, a preferência primeira é Jesus, depois o Espírito Santo. Para chegar até Ele, existem milhares de intercessores – sejam os santos produzidos pela Igreja Católica, sejam os muitos “Jesuzes” oriundos das inúmeras denominações evangélicas, sejam mesmo os muitos pastores evangélicos e padres que procedem como uma espécie de “procuradores” do Verbo Divino.
Cada igreja é dona de sua verdade, que deve ser sobreposta às verdades dos outros.
O Espírito do Senhor está de prontidão – sempre à disposição de algum “ungido”.
Quando é chamado, desce sobre os crentes promovendo desmaios e gritos, pois parece que só assim consegue promover a expulsão de demônios, espíritos maus e outras negatividades. A prática da simonia está instituída. Vendem-se, principalmente nestas chamadas neopentescostais, a mais variada gama de “objetos milagrosos”, que vão desde um tijolinho de plástico, uma fronha dos sonhos, uma toalhinha milagrosa, vidrinhos com a água do Rio Jordão, porções de areia do deserto da Judéia, além de outros artefatos. Parece que não leem o Novo Testamento – onde coisas desse tipo foram condenadas por Cristo, quando abominou a presença de mercadores no templo de Jerusalém, denomina por ele “Casa do Pai”.

Nosso povo, em termos de conhecimento religioso, é analfabeto. Nossa cultura religiosa é uma mistura do cristianismo europeu, das religiões afro-brasileiras e das crenças indígenas. As incorporações do candomblé e da umbanda são copiadas em algumas igrejas evangélicas. Os passes para limpeza espiritual, das sessões espíritas, também.
O proprietário de uma grande “Igreja Universal” agora traveste-se de rabino. Com um solidéu na cabeça, envolvendo o corpo com o manto azul e branco do Judaísmo e com uma barba comprida, apresenta-se à multidão como um profeta não se sabe do quê.
Um outro propõe aos que não tem casa própria, que façam um “sacrifício” à sua igreja, no valor de 30% do aluguel que paga, por determinado tempo. Assim, Jesus se apiedará e fará com que possa ter uma casa.
O “Jesus” dessa igreja deve ser sócio de alguma empreiteira ou até do programa habitacional do governo. Quem ganha salário e paga aluguel, ao fazer o tal “sacrifício” com essa nova despesa, não poderá suprir sua família durante o período sacrificial, além de tornar-se inadimplente com o locador. “Jesus” se apossará de parte da renda miserável, obrigando o fiel a deixar de fornecer aos filhos a parca alimentação de cada dia. Glória!
O Cristianismo ascendeu como religião quando a religião mitológica greco-romana entrou em decadência.
O homem estava cansado dos deuses. Conscientizou-se que não poderia esperar nada deles. Aí, surgiu alguém com uma mensagem de renovação e esperança que trazia a paz, a bem-aventurança, a irmandade, a solidariedade e o amor ao próximo. Foi como um fogo novo a iluminar a escuridão.
A mensagem, no entanto, não era religiosa, era uma lição de vida. Isso, ao que parece, incomodou muita gente.
Deu no que deu. Esses ensinamentos foram escritos e documentados depois de quase um século de transmissão oral. Sofreram transformações, alterações, más traduções. Serviram para estruturar uma igreja nos moldes e hierarquia do decadente Estado Romano.
Até quando o homem desse século, que dia a dia obtém com facilidade conhecimentos para uma crítica realista, aceitará esses absurdos e fantasias?
Nosso povo brasileiro está cansado de ser tratado como animal para abate. Não quer ser feliz na “outra vida”, onde Deus o “recompensará” pela existência miserável que teve nesta. Nem vai ter, para sempre, a paciência de comprar a juros mensais altos, uma independência financeira sem garantia de concretização.
Será que o cristianismo, que é filho do judaísmo, cuja origem encontra-se na cultura de povos primitivos da Idade do Bronze, conseguirá sobreviver a esse século, sem se transformar? Como as gerações futuras – filhas da alta tecnologia, do conhecimento cada vez mais sofisticado, dos valores que mudarão (talvez de uma década para outra) – verão esses dogmas, promessas vazias, ganância por dinheiro, “em nome de Jesus”?
Até quando será suportada a misoginia – ainda que não sexofóbica como no Islã ou na ortodoxia judaica – mas ainda presente em quase todas as religiões cristãs, principalmente na Igreja Católica? Até quando a mulher ainda será tratada como fator de pecado e perdição, sem ter o respeito que merece? Que religião sobreviverá em um mundo que se torna cada vez mais feminilizado, se nela o feminino não tem lugar, não é querido nem respeitado?
Até quando um fiel acreditará que poderá comprar uma “salvação” por algo que não fez, ameaçado de condenação por um Deus implacável, e pagando por ela um taxa de 10% de seu ganho todo mês?
Até quando aceitará ser extorquido, enganado, dilapidado, explorado em sua fé infantil por “representantes” de um Deus que o aguarda no além, munido de um livro contábil, onde estão lançados, a débito, todos os “pecados” que cometeu durante uma vida de luta e sacrifícios? Pecados criados, avaliados e estabelecidos por outros homens, ditos “ungidos”, tão ou mais “pecadores” que ele?
Ficam, então as últimas perguntas:
Será que o “cristianismo” praticado pelos poderosos, donos das igrejas mercantilistas, mentirosas e hipócritas, sobreviverá no futuro? Estes proprietários destas igrejas diversificadas, criadores de “Jesuzes” multifacetados e de conveniência, acreditam que poderão enganar para sempre?
Pretenderão continuar vendendo para os homens e mulheres que andam atrás de respostas para suas dúvidas o que não possuem, sem qualquer garantia de entrega, essa mercadoria denominada “salvação” – mercadejada por eles que se dizem “ungidos” por um deus mais que conveniente, e ao qual não pretendem prestar qualquer conta, nem agora nem nunca?
Parece que atravessamos um período idêntico àquele do final da religião greco-romana que, com seu esvaziamento, deu condições para o início da adoção do Cristianismo pelos povos através do próprio império romano, que passou a considerar a chamada Boa Nova como religião oficial.
Conseguirá esse “cristianismo”, praticado nas condições de hoje, sobreviver ao século XXI?
Quem sabe chegará o momento em que a humanidade, mais evoluída, compreenderá ser Deus mais cósmico e menos humano.
Deus de bilhões de trilhões de galáxias, que ainda nem suspeitamos existir, e não somente de um pequeno e lindo planetinha azul, escondido em um cantinho da Via Láctea.
Que consigamos entende-Lo como energia criadora, renovadora, transformadora, e não como um ser misterioso, pequeno e antropomorfico. Um ser menor, que se ocupa com os “pecados” de criaturinhas assustadas, dependentes e ignorantes da beleza e da imensidão dessa grande energia criadora, da qual é parte.
Que Ele seja compreendido pelo novo homem deste século. Homem este que está se habilitando, cada vez mais a percorrer imensidões, universos, aprendendo e evoluindo para vir a ser, efetivamente, parte integrante do Cosmo. Um Deus tão magnífico que não caberá dentro de templos, nem estará a “serviço” de nenhum autodenominado “ungido”, pois será amorosa e verdadeiramente, parte de cada criatura, como foi daquele que ensinou seu amor à humanidade um dia – sem cobrar nada por isso.

Marco Aurélio Arrais, natural de Goiânia, advogado (PUC-GO), contador de causos, é pesquisador da história do Brasil ou, como ele mesmo se denomina, “um curioso de nossa história”. É colunista do Portal Ambiente Legal.
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