
Por Marco Aurélio Arrais
De vez em quando, recordações de fatos ocorridos na minha infância, emergem lá do depósito das lembranças. Na maioria das vezes não tem nenhuma importância, mas uns outros trazem situações vividas, que deixaram, na mente, uma marca duradoura.
Lá pelos anos de 1957, tinha nove anos, mas já era o responsável pelas pequenas compras do dia a dia. O comércio que atendia o bairro do Botafogo e o conjunto do IAPC, onde morava com meus pais, situava-se na Av. Anhanguera, logo atravessando o córrego, o que era feito por uma ponte de madeira estreita. Asfalto não existia, e a maior parte do tráfego era feito por uma infinidade de carroças, e um ou outro caminhãozinho. Automóvel só no centro de Goiânia, em sua maioria carros de praça, como eram denominados os taxis daquela época.
Logo depois de atravessar o córrego, à esquerda da avenida, ficava a Pensão Gaúcha dos Índios, onde eram acolhidos os membros das diversas tribos que, naquele tempo, habitavam Goiás. Eram carajás, caiapós e outros das mais variadas etnias. A tal pensão, como o nome indicava, era de propriedade do Gaúcho, um sujeito feio como o demônio, sem a metade esquerda do rosto, faltando a bochecha, parte do nariz e a orelha. Tinha um contrato com o Serviço de Proteção ao Índio, e não me lembro de ter visto, algum dia, um lugar tão sujo e fedido.
Os índios ficavam sentados no chão, onde deveria ser uma calçada, exibindo seus artesanatos, que eram vendidos ou trocados por roupas e calçados usados com a população. De vez em quando percorriam as ruas tentando comerciar arcos e flechas, bordunas, cocares e brincos de plumas delicadas, ou colares feitos de sementes, escamas de peixes e dentes e garras de animais.
Era comum as índias usarem só uma saia, ficando com os peitos de fora. Aí entravam em ação nossas mães, recolhendo a molecada para não ficar vendo o que diziam ser “sem-vergonhice” de índio.
Certa feita minha mãe, dona Floricena, mandou que eu fosse comprar um quilo de açúcar, com ordem expressa de ir e voltar rápido, com tempo contado e medido.
Saindo do armazém com o saquinho de papel com um quilo de açúcar nas mãos, minha atenção foi despertada por um homem que aproximou-se de um outro que estava de costas para ele, encostado em um poste de madeira, e pareceu-me que ia brincar de dar-lhe um susto. A gente sempre fazia, isso entre a molecada. Quando chegou junto ao outro, tirou uma faca comprida debaixo da camisa, e enfiou-a na parte de trás do pescoço do infeliz. A faca saiu pela frente do pescoço, entrou novamente por trás do queixo, e foi sair pela boca. O homem caiu, sufocado com o sangue, roncando feito um bicho. O assassino limpou a faca na camisa do agonizante, e saiu tranquilamente montado em uma bicicleta. Fui para casa apavorado, onde cheguei sem fala, respirando com dificuldade. Com muito custo, consegui relatar o acontecido. Fui imediatamente medicado do susto, com um copão de água com açúcar.
De outra feita, mais ou menos na mesma época, estava minha avó, de tardezinha, sentada em um banco no terreiro frente à casa da chácara, recebendo algumas visitas. Eis que, vindo dos fundos da chácara, surge um conhecido, morador do Cascalho, nome do setor do outro lado do córrego Botafogo, que fazia a divisa da propriedade. Sem parar, desculpou-se por entrar na propriedade dessa maneira deseducada e, a passos largos, enveredou-se pelo cerrado. Daí a pouco, vindo também pelos fundos da propriedade, surge o Massu. O tal de Massu era um sujeito trabalhador, conhecido por todos, e respeitado pela coragem e por ser um homem violento. Trazia nas mãos um cano de ferro, com uns dois metros de comprimento. Parou, cumprimentou a todos, e disse que tinham acabado de matar o irmão dele. Perguntou se não passara por ali o João Preto, como era chamado o matador, que estava tentando fugir. Riscou no rumo tomado pelo outro.
Aproveitando da distração de minha avó, varei a cerca de arame e fui atrás dos dois pra ver o que ia acontecer.
Mais adiante haviam limpado o cerrado e feito um campo de futebol, que era utilizado pela população do bairro nos fins de semana. Chegando lá, depois de varar as moitas de capim, dei de frente com os dois. Antes de sair no limpo, havia escutado o estalo de um tiro. No chão, sentado, com as mãos na barriga, estava o João Preto, olhando para o Massu. Este deu-lhe outro tiro. Em seguida, com o cano de ferro, começou a bater na cabeça dele. De onde eu estava, a mais ou menos uns vinte metros, podia ver tudo com clareza. De lá ouvi os ossos da cabeça sendo esmagados. Vi também os miolos do sujeito serem espalhados pelo chão, em volta. Quando ficou apenas uma massa disforme, o Massu largou o cano no chão e saiu correndo. Voltei para casa, e nunca falei nada para ninguém, com medo de levar uma surra. A primeira pessoa a quem contei o acontecido, foi meu pai, mas aí já estava com mais de trinta anos.
Na minha infância, quase todo mundo andava armado. O preferido era o revólver Smith & Wesson, calibre 38, cano longo. Arma confiável, de boa qualidade. Lá em casa meus tios usavam um cinturão com pelo menos umas trinta balas. Eu achava a coisa mais linda do mundo! Para compensar, nos aniversários e natais, o presente era sempre o mesmo: um revólver de ferro, de espoleta, com coldre. Com ele exterminava inimigos imaginários e atormentava a cachorrada da casa. Certo Natal, ganhei do meu padrinho um que era uma belezura. Prateado, todo cheio de desenho. Tinha um coldre mais bonito que os dos meus tios, que tinham revólveres de verdade.
Hoje em dia não existe mais esse tipo de brinquedo. Dizem que ensina as crianças a serem violentas. Mas não é isso, não. O que desanda a pessoa é falta de escola, falta de respeito. É falta de comida e assistência. É falta de vergonha e o excesso de safadeza desses governantes e políticos de merda.
Lembrei-me agora de uma situação que só pode ocorrer com moleque desocupado. O cerradão, em volta da chácara onde morávamos, era um vazio danado. Quando morria cavalo, a carniça era arrastada para longe das casas, e abandonada para os urubus comerem. Aí resolvemos laçar urubu. Com uma cordinha fina, fazia um laço no chão perto do bicho morto, e quando o urubu descia para comer, era laçado pelo pé. Conseguimos prender dois urubus, e amarramos as cordinhas, ligando um ao outro. No meio das cordinhas, entre os urubus, três cachos de latas de massa de tomate. Soltos os bichos, saíam voando desesperados, com as latas chacoalhando num barulho infernal. E iam céu afora, gritando lá na língua deles e cagando sem parar. Foi uma festa!
Agora, para terminar, vou contar como foi que tomei minha primeira dose de bebida. Eu e meu irmão Gersinho fomos a um bar comprar guaraná. Lá chegando, alguns homens bebiam cachaça no balcão. Um deles perguntou se queríamos provar. Outro sugeriu que tomássemos o conhaque de alcatrão São João da Barra, que era mais fraco. Os dois bestas entornaram na guela a bebida, e… fomos para casa completamente bêbados.
Meu tio Pinheirinho, ao ver aquilo, primeiro deu na gente uma surra de cinto, pra tomar vergonha. Com a surra, parece que o teor alcoólico amiudou. Pôs na cintura o revólver e nos fez voltar ao bar. De longe os bebuns ao nos virem, se escafederam, ficando só o dono do boteco. Inquirido sobre o fato de dar bebida a duas crianças, o desaforado disse que vendia a quem quisesse. A idade não importava. Diante de tal afronta, meu tio sapecou a carga do revólver nas prateleiras, caixas de bebida e telhas do bar. Destruiu todo o estoque. O dono saiu correndo para não levar tiro. Feito o serviço e dado o recado, voltamos para casa.
Toda vez que vejo uma garrafa de São João da Barra me dá uma vontade danada de rir, ao lembrar da fuga do botequeiro.
Marco Aurélio Arrais, natural de Goiânia, advogado (PUC-GO), contador de causos, é pesquisador da história do Brasil ou, como ele mesmo se denomina, “um curioso de nossa história”.
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